terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Não sei quem és




















De madrugada eu não sei quem és nem que nome tens,
Serás fogueira, silêncio ou mesmo escuridão,
Ou talvez ausência, tristeza, paixão.
De madrugada perco-te o nome, o norte, o tino, a existência.
Não sei sequer de onde vens,
Que razão prolonga a tua ausência.
Relembra-me o teu nome ao sol nascer,
Quem és tu para mim na crua luz desta alvorada nua.
Porque te quero esquecer na madrugada
E reaprender-te na fria margem do meu dia.



 

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Moura encantada



























De que cascata de luz
Emergiste tu, moura encantada,
Que feérico bosque te pariu
Assim tão inumana?
Passeias incólume e serena
Nos sonhos do mundo.
E quando soltas o teu canto mágico
Há uma catástrofe algures
Num canto do Universo,
Porque até os deuses
Abandonam a Criação
Para te ouvirem (en)cantar.

Para lá do teu sorriso


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O teu sorriso desagua nas minhas mãos como estilhaços.
Para lá do teu sorriso estão as sombras do mundo,
sorriso de menino perdido de sonhos azuis
que se confundem com o céu e desaparecem no mar.
 
 
 

Os orbes de teus olhos


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Claro e límpido universo líquido
Nas orbes de teus olhos,
Escuro verde cedro que não é floresta.
É lá que navegam espantos e poesias
(algumas que não sei decifrar).
É lá que me enredo e enrolo
Que me perco e rebolo
Em heresias de amor.
 
 

Eu sou rio













 
 
 
 
 
Contigo eu sou rio
Alma líquida de azul
A desaguar nos teus olhos de espuma.
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O caminho velado

















Que estradas escondidas no imenso céu percorrem estes pássaros?
Com que alegria sabem eles o seu caminho?
Estará o trilho escondido por entre as suas asas
Ou conseguirão eles ler nas estrelas?
Eu que não sei ler nas asas nem na vastidão estelar
Pergunto ao coração se ele esconde no seu bater sincopado
O mapa do caminho velado.


Foto: Getty Images

Alma azul



















Se visto a alma de azul
Não é porque seja mar,
Mas noite escura,
Puro breu sem estrelas nem luar,
Lágrimas de saudade,
Secura de alma que irrompe em cada madrugada.
Azul é o espanto e o desejo
Que antecede a tua chegada

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Alma nocturna









Quando esta parte do mundo se recolhe na noite
E todos as coisas desta parte do mundo adormecem,
Fico acordada à tua porta,
Testemunhando as tuas horas,
Escutando os teus passos.
Sei de cor as rotinas e guardo-te os sonhos na memória.
No teu pacífico adormecer estendo-me no primeiro degrau
Qual amante que se deita a teu lado.
Velo as tuas noites como fera protectora.
Quando a madrugada liberta a sua luz,
Vou pelas ruas cantando os teus sonhos, que são poemas.
Olha-me quem passa.
Uns com dó de quem por ti ensandeceu.
Outros param a olhar-me como se eu os tivesse chamado pelo nome.

Tudo para quando a mim regressas










Tudo para quando a mim regressas.
Sustida no voo a andorinha,
Revolto em espectro o fugaz vento,
O próprio mar estarrece em planície e azul,
E há um tumulto de arvoredo na alegria.
Só os teus passos se ouvem no caminho.
Suspensa toda a vida e o canto das sereias,
A própria luz anseia o teu perfil,
Vêm os deuses espreitar a eternidade.

Tudo para quando a mim regressas
Só os teus passos se ouvem no caminho.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Ontem




Ontem abracei-te como quem abraça o mar,
E no profundo silêncio azul,
Os teus olhos líquidos de ondas
gritaram uivos de sereias no adeus.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Quimera II

















E se do meu coração fragmentado
voassem pássaros por entre o infinito das manhãs
e a tua alma volátil se soltasse em vento sul
na carícia das suas asas cor de sangue?

Ninfa e Fauno



 



Na curva, à tua espera,
fauno sem luz nem cor,
desenho abraços na noite
e escrevo rostos nas estrelas.
Quando a tua sombra curvada
da espuma do cansaço se assomar,
acenderei a Lua para que me vejas.
Aqui estarei para me salvares,
por entre a noite, a madrugada e beijos de luar,
fingindo humanidade no tempo da eternidade,
ninfa escondida na eternidade do tempo.


Foto: Pan e Selene de Danae

Contigo

















Seguirei contigo de pés descalços na areia,
vestidos de maresia e ondas bravas.
O vento há-de levar as tuas palavras escuras de noite
para longe, mais longe que o voo das gaivotas que nos cercam.
Irei contigo onde os teus passos nos levarem,
virás comigo na rota dum crepúsculo
onde sol e lua finalmente se beijam.
E das nossas almas amarrotadas como lençóis usados pelo amor
há-de brotar um novo alvorecer de líquidas estrelas.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quimera I





E se de repente do meu corpo frio
Se fizessem madrugadas,
E das tuas mãos ausentes brotassem os sóis
que as incendiassem?

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Pastoral














Nasci com ervas daninhas no sangue.
Sigo rasteira no entardecer dos bosques
Em esteira de pinhas secas e cheiros bravios.
O vento traz rumores das vinhas,
E o canto violeta dos pássaros embriagados de uvas e amoras
Soa para lá do riso da sábia ponte.
Pairam no ar finas memórias de sol
Em bocejos de águas.
No silêncio das romãzeiras fecho os olhos e sonho,
Rubros sonhos de então.
No monte o velho moinho continua a caminhada.
Há-de chegar, jura ele, rangendo as suas dores.
Um dia, há-de chegar!
Não sei para onde ele vai, mas acompanho-o.
Lá longe, os pássaros saciados adormecem
Com o meu sonho debaixo das asas.


Foto: Old Mill, Marshall County

Inevitável amor inverno

















Inerte a manhã.
Silenciosos os pássaros
Enredados num vento envelhecido.
Cansada a chuva fria
Moendo as dolorosas pedras
Dos trilhos esquecidos.
Perdida eu
Na conjugação do verbo que
Cessou de existir
No tempo inevitável e sem sentido
Duma manhã inerte.
No perpétuo inverno oculto
Num poema de amor.
Inevitável e inerte.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Noite





A noite escreve ausências na pele.
Minha pele.
Ausência tua.
E a noite derrama-se sobre os dois,
feita líquido silêncio frio.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Talvez...




Se vieres,
possa eu estar.
Se ficares,
Queira eu permanecer.
Se me contares as estrelas,
quem sabe, eu calarei os ventos
e abrigarei tempestades no seio
para que nada te perturbe a palavra.
Se sorrires,
que eu não me perca
na densa névoa dessa tristeza.
E se me estenderes a mão,
eu esperarei que tragas a alma com ela.
E mesmo que chegues e nada tragas contigo,
porque nada tens em ti,
talvez então eu acredite
que finalmente chegaste a casa.

Diz-me de ti em ruínas





Diz-me com a tua voz de vento escuro o que alojas no coração?
Diz-me com palavras de lua morta que nome tatuaste na memória,
que canção ecoa no teu mar coalhado, quem te embala os sonhos
na perversidade estéril da solidão que inventaste?
Diz-me se a tua felicidade tem nome de naufrágio
ou é apenas uma sílaba vazia, desenhada na ponta dos teus pés
que nunca cessam de procurar em estradas de giestas e ruínas.
Diz-me se o que te move é a fome de vida ou o fastio da morte,
no silêncio dos teus dias vãos.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Loba














Vasta a noite.
Negro o silêncio.
O uivo rubro
ecoa nas pedras
e acende a Lua,
branca de espanto.

Aqui me dispo de quem sou,
ou pretendi algum dia vir ser,
solto palavras ao vento
como os mais finos cabelos,
sacudo a areia do tempo,
a poeira dos caminhos trilhados
mas nem por isso amados.

Visto a noite.
Abraço o silêncio
e solto o uivo branco
que ecoa em mim.
Rubra de espanto.
sigo a minha Lua negra.

Cansaço



















Vai e dorme.
Repousa lá longe onde o horizonte é teu
e o canto da musa distante te encanta o coração.

Vai e dorme.
Repousa a cabeça cansada nas ondas dum
ebúrneo e ideal ventre desconhecido.

E quando acordares com os sonhos saciados,
talvez já não hajam desertos em teu redor,
nem o silêncio estéril dos leitos secos dos rios.

Talvez só a saudade permaneça.



foto de Jan Saudek, The Lovers

Adeus



As palavras sangraram.
Caíram no solo árido da mentira
arrastando-se sem rumo certo.

Sinto em mim a poesia do adeus
no dia mais que deserto.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Conversa com um amante sobre o amor possível






















Não espero fogo de artifício ou que explodam estrelas por aí,
Tu não vês deuses na terra nem trazes vulcões no coração ou lava no sangue,
(metáforas de poetas, sabes?)
Eu não vou mudar de cor, tu não vais mudar de pele,
Eu não sou tu, tu não és eu, equações nulas.
Seremos talvez números primos, díades de resto zero, quase indivisíveis.
Tu existes para que eu exista. Eu sou para que tu sejas.
E as coisas que nos separam (ui, tantas!) não nos afastam,
Nem delas nos afastamos.
Almas gémeas? Metades?
Não sei, nem digo.
Almas seremos sempre. Mas por inteiro.
E ainda assim imperfeitas e incompletas.
Não pertencemos. Somos.
E um dia, sem aviso prévio, um de nós vai deixar de ser
Quando a vida se lembrar de usar a foice.
Eu não sou tua, tu não és meu,
Pelo menos no sentido lato do verbo pertencer.
Sim, eu sei, os corações são como os poetas,
Gostam de morrer de amor (nem que seja em sentido figurado)
Gostam de pertencer um ao outro.
Pronto, ok. Troquemos de coração.
Agora és tu o poeta e eu a leiga,
Mas gosto de te ler por dentro, de te virar do avesso em provocação.
Agora és tu quem dialoga baixinho com os teus anjos desasados
E eu espeto o dedo no olho de Deus para que me veja,
Ou chuto o rabo do diabo, ora porque não?
Agora és tu o vaidoso que se mira no espelho
E eu finjo que troço, mas aprecio,
Não o ver-te no espelho, mas saber-te por dentro.
E é disso que sorrio à socapa. Do quanto eu te sei!
“Porque não te olho no espelho para que me vejas,
Mas para te ver.”
Agora tu és o veneno e eu o antídoto.
Eu sou o 12º signo da ternura e sensibilidade e
Tu és o escorpião secreto e mal-amado.
(oh meu bem amado!)
Nós somos o encontro que tinha de acontecer.
A colisão. Sem fusão ou anulamentos.
Átomos dançando, olhos nos olhos, em órbita dum mesmo núcleo.
Elementos díspares duma qualquer reação química
Que nos mantém íntegros, mas coesos.
Amanhã, voltaremos a trocar de coração,
Porque os poetas em nós assim exigem.
Não esperamos amores shakespearianos
Nem operas trágicas de Verdi.
Só o amor possível.
Só este amor que temos.
Só este amor.



Divagação sobre Everton Behenck e o seu amor possível
Foto de Jenny Boylan:signs of love

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sou como a Lua





















Sou como a Lua,
Minguo e cresço,
Às vezes, desapareço
E outras vezes sou tua.

Sou como a Lua,
Banhada nua
No amante mar.
Sou como a Lua,
Cuja alma mingua
Se não te encontrar.

Sou como a Lua,
Branca lembrança
Sozinha no espaço.
Sou como a Lua,
Cheia de esperança
Dum teu abraço.

Sou como a Lua,
Minguo e cresço,
Às vezes, desapareço
Mas sempre sou tua.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Antes abismo, agora presença e sempre eternidade
















Foi quando olhei para trás
E os meus olhos fitaram o abismo
E tu me deste a mão,
Que percebi que a ia guardar
No bolso da alma para sempre,
O que não é muito tempo
Quando o amor chega e
Exige eternidade.

Agora sei que mesmo quando não estás aqui,
Aqui estás ao meu lado,
Aqui está a tua mão que me guia
Na subida e na descida
E me esmaga os dedos
Como se carne e ossos se fundissem num só.

Não me espanta a queda.
Caio nos teus braços,
Na força muda que me enlaça
E suspende o medo,
E estica o fio do horizonte para nós dois,
Lá onde o amor amanhece e se eterniza.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Na luz da tua sombra



























A tua sombra não partilho com ninguém,

Pois é por ela que encontro a minha luz.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Quatro Estações


 


Fosses tu árvore,
Eu seria Outono
Para te desnudar com um sopro,
Te banhar na seda da chuva
E depois rodopiar á tua volta
Sussurrando sei lá que disparates de amantes.

Fosses tu terra,
Eu seria Inverno,
Para te abraçar húmida e fogosa
Com a fúria de todos os rios
E depois, mansamente,
Me espraiar e repousar em ti.

Fosses tu semente,
Eu seria Primavera,
Para te ver despontar em flor,
Crescer no suspiro de pássaros apaixonados
E depois beijar-te, como quem chora,
No orvalho da manhã.

Fosses tu Lua,
Eu seria Verão,
Para te fazer gemer de luz
No cio do estio de Agosto,
E depois finalmente adormecer em ti, como quem morre,
Velada pelo branco puro do linho do teu amor.

 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Maresia



Cuido que este cheiro de maresia
É somente um suspiro de sereia
Feito duma promessa de beijos ausentes.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Lilith II


















Eu não sou Eva,
Cordeiro de Adão,
Segunda escolha do Deus
Para a solidão do Homem.
Eu não sou Eva,
Espelho dum Homem,
Imagem duma costela.
Eu não sou osso dum osso
Nem carne duma carne,
Bode expiatório da serpente
Exorcizada do Deus
Cujo nome guardo no coração.
Eu escolho o caminho,
Penso por mim,
Blasfemo e oro
Com o mesmo fervor
Com que Deus e o Homem me puniram
Por ousar ser mulher e ser eu.
Eu dito as minhas regras
Não conheço rendição,
Trago a lua nas veias
E vomito a sua luz.
Eu sou Lilith,
Anjo ou demónio,
Tu me dirás,
Quando beberes a minha escuridão
E dançares no meu limbo.
Trago veneno nos lábios, não submissão.
Não preciso de asas para ir mais além,
Não sigo atras de ti,
Não estou debaixo de ti,
Não sou parte de ti.
Eu sou Lilith,
Barro do teu barro,
Lama da lama de Deus
Que te criou.
Ao teu lado,
Como igual.
Igual!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Lilith






























Filha da Lua
Porque cantas com luto nas palavras,
E escondes de mim as asas de escuridão?
Deixa-me esconder na tua canção,
Por entre estrelas mortas
E sois adormecidos.

Filha da Lua
E de deuses esquecidos,
Sigo a tua voz de vento
E vou mais além.
No som pungente
Do teu lamento
Abraço esse requiem
E canto também.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Consolatrix Aflictorum





E bruxa me chamam porque não temo as trevas,
Mas sigo na luz do meu fogo interior,
No canto luminoso que ecoa nas sombras.
Segue-me,
Se a tanto te impele o atrevimento e o desejo.
Mas vem de pés e coração descalços
Para que a tua voz se oiça na noite
E o casulo mortal se rasgue para o voo.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Eterno o beijo



E tu com um beijo me eternizas,
Escravizando o tempo,
Cobrindo de espanto os mundos.

Beija-me de novo
No arrepio das estrelas,
Na indignação dos estéreis deuses.

Acende meus lábios com os teus.
E no sufocar do desejo
Inspiremos inteira a eternidade.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O que move as nuvens?







O que é que move as nuvens?
Dizem os poetas que o vento corre com elas
Como quem brinca com algodão doce.

Os cientistas, sérios e circunspetos,
Analisam convecções, topografias, frentes e convergências,
Processos adiabáticos.

Mas eu estou em crer que as nuvens
Se divertem à custa das metáforas dos poetas e
Se estão nas tintas para as fórmulas matemáticas dos cientistas.

Eu acho que elas correm atrás do teu sorriso.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Embriagar-te





Embriagados de sol,
Cantam girassóis no teu quintal.
A mim me encanta a Lua,
A noite e a tempestade,
E não sei cantar.
E no entretanto, os teus girassóis
Banqueteiam-se de luz solar.
Ai quem me dera embriagar-te de mim
Como o sol faz aos teus girassóis.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pássaro?





Não nasceu pássaro.

Mas quis voar!
E enquanto os outros jogavam ao berlinde
Ele contava asas nas nuvens
E estou em crer que acreditava
Que a alvorada rompia vermelha e feroz no coração dos pássaros
E o sol se erguia com o primeiro piar.
Não lhe cresceram asas.
Mas quis voar!
E enquanto os outros aprendiam a soletrar e a cantar poemas,
Ele rimava alfazemas e colibris,
Marés com gaivotas
E corvos com a noite escura.
Não tinha bico, nem garras.
Penas? Cresceram-lhe no coração, não nos braços.
Mas quis voar!
E enquanto os outros mediam Q.I.’s
E médias para a universidade,
Ele alojava ventos no coração,
os ventos onde viviam os pássaros.
Madrugadas também.
As dos pássaros.
Passava os dias na falésia,
Os olhos no abismo das asas,
Não das pedras,
Onde um e outro voo lhe entrava na alma como um desafio.
À noite passava fome,
Escorraçado pelos semelhantes por se parecer com as aves.
Um dia, ao crepúsculo sobre o abismo,
Abriu os braços,
(como se fossem asas)
Para voltar para o ninho como os demais pássaros.
Passou um, rasando-lhe a testa,
E eis logo outro que o despenteou, convidando:
- Vem daí, irmão!
E ele foi. E voou!
Não tinha asas, não.
Não sabia.

Acolheu-o o mar, como se ele fora gaivota.
Todas as asas o vieram velar nessa noite.
Até os anjos que nunca acreditaram que pudesse voar.
A alvorada rompeu, vermelha e feroz, no coração dos pássaros
E o sol despertou com o primeiro piar.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Recomeço




















As finas mãos dos deuses poisaram pesadas
Sobre a minha cabeça.
Não me vieram fadar nem dar poderes especiais.
Cuspiram depois na minha face,
E com a sua saliva sagrada lavaram o medo.
Agora morro e renasço,
E em cada passagem pela minha escuridão,
Realinho o trilho e recomeço.
Alguns conhecem o caminho mas continuam perdidos.
Eu conheço a perdição, mas sigo o meu caminho.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Revolta


Os cravos esquecidos no chão
São a esperança deste povo que fenece,
E na boca das espingardas
O grito de raiva que ensurdece.
Na urgência da justiça,
Só murmúrios de fome e dor.
Acordem, flores pisadas!
Unam a voz às espingardas,
num único e forte clamor.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Lua Azul (I)



Lua,
Minha feiticeira nua,
Quem te mandou azular?
Embriagaste-te de céu,
Ou bebeste a cor do mar?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Saudade



Quem me dera de novo
Aquele campo de urze e rosmaninho
Onde fui pastora e vagabunda,
Onde o meu pai dizia
Que havia mais verde nas pessoas.
E havia!

Quem me dera de novo
Encher os pulmões com os montes
E entre fontes e rebanhos
Enterrar os pés no húmus frio e fértil,
Manchar de amoras o meu vestido branco
E toldar o juízo com medronhos.

Quem me dera de novo
Banhar-me nua e inteira
Debaixo de inesperadas cascatas
Que saltavam penhascos delirantes
E vinham cantando,
Frescas e límpidas,
Pelas pedras abaixo.
Recantos que só as ninfas guardavam,
Onde o meu pai dizia,
Que à noite, nas fragas,
A água roubava os raios do luar,
Para brilhar no dia em filigrana de prata.
E brilhava!

Guardo nos olhos o verde e a prata
Que a saudade de meu pai teceu.
Era saudade!
Quem me dera de novo
Nos dias sombrios de tempestade
Em que a eternidade cabia inteira
No rugir do céu,
E havia promessas de vida
No cheiro da terra molhada.

Quem me dera de novo
O tempo em que a voz de meu pai se ouvia
E dizia coisas que nunca esqueci.
Nunca esqueci!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Dizer-te numa frase (15 anos)

















Dizer-te numa frase seria deixar-te a meio.

Porque tu não és somente o meu sangue, o meu orgulho,

És um pedaço de alma que se soltou de mim em vendaval

E na luz dos teus olhos vejo a minha eternidade.




à B.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sereia, Serei a...



São búzios verdes o que trazes nos cabelos?
Que cantas tu, sereia, em voz de azul enlouquecido
Que tão feliz fica a maré, só de te ouvir?
Cora-se o sol, incendiando longe o longe do teu mar.
E quando te vais com as ondas
Nada mais fica senão o teu perfume de algas e sal
E o manto crú de silêncio que a noite veste
e mergulha em mim.

Ser eu a fera





Ai quem me dera
ser eu a oculta fera
no escuro do teu olhar!
Ai quem me dera
o sonho breve, a quimera,
de eu em ti te encantar!


Asa eterna




Agora vou virar pássaro
E serei verde breve no longo azul,
Suspensa vida na lonjura sem fim.
Viagem sobre a espuma do sonho
Que a minha asa eternizou.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Rubras rosas




Foi o meu coração sangrando
que avermelhou estas rosas,
ou elas somente enrubesceram
com o teu beijo de despedida?

Rosmaninho no olhar





Devagar, devagarinho
eu divago no caminho
perdida no rosmaninho
que floresce no teu olhar.
No veludo dos teus passos
e neste nó feito de abraços,
eu deixo o amor chegar.

Amor na mesa de autópsia


Foto: Olhosgóticos


Em cima desta mesa expus a nudez do meu amor,
como um cadáver indefeso à espera da autópsia,
sem segredos nem esperança fiquei,
senão aguardando que chegasses,
me visses e me amasses.
Escureceu a vida e o vento passou,
levando consigo migalhas de mim,
tudo o que restou quando eu anoiteci.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Libera me



de trinity89luar



Com a ponta de teus dedos frios me enredaste.
Nesta Lua de silêncio, estéril e sombria, me exilaste.

Libera me.

Liberta-me do emaranhado de emoções em que me prendeste,
teia de orvalho densa e agreste que te veste o coração.

Libera me.


Anjo caído na sombra, que a ira de Deus petrificou,
espectro que o próprio inferno assombra,
e é tão somente o reflexo de quem eu sou.

Libera me.

Deixa-me ir, com os olhos vestidos de chuva,
partir no vento cinza que a alma escurece.

Libera me

Liberta-me da morte escura
que em teus olhos transparece.

Libera me

Porque enquanto me esquecias, Anjo perverso e ruim,
troquei minha alma com a tua no minguar desta Lua.

Agora, sigo em ti e tu em mim.



Nada do que escrevo te contém




















Nada do que escrevo te contém.
Nenhuma rima, nem metáfora,
nenhum ponto final te detém.
Porque tu és maior do que a palavra,
que o gesto ou a intenção.
Tu és a própria emoção,
alma ao rubro, vestida de coração.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Chuva





Cai,
cai,
chuva,
cai.

Pingo
a
pingo
cai
a
chuva.

Cai a chuva sobre a flor.

Gota
a
gota
a
flor
curva.

Está chorando por amor...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Beijo de chuva à chuva




Pediste-me um beijo de chuva
e eu à chuva to mandei
e o que a chuva murmurou
a ninguém revelarei.

Pediste-me um beijo à chuva
e um beijo de chuva te dei,
outro com o vento voltou,
no coração o guardarei.